domingo, 19 de agosto de 2012
Novo "O Vingador do Futuro" consegue divertir pelas cenas de ação, pelo menos
É um exercício cruel escrever sobre uma refilmagem de “O Vingador do Futuro”. O filme original, de Paul Verhoeven, é uma das pérolas imortais do cinema recente (é de 1989), e ainda muito próximo para uma análise descontaminada desta nova versão. Ainda assim, como a comparação direta é injusta para com esse novo filme, vale o esforço.
Nesta nova versão, conhecemos Douglas Quaid, papel de Colin Farrell. Um operário ordinário em uma fábrica de robôs-policiais, que sonha com uma vida que signifique um pouco mais do que trabalhar, viver, ter filhos, envelhecer e morrer. Você sabe, como Hollywood nos ensinou a almejar. Ele vive em um futuro distópico, cuja maior riqueza é a terra habitável. Esse mundo se divide em dois espaços: o que restou da Europa, lugar dos ricos e onde os pobres, que vivem na Austrália (agora chamada simplesmente de Colônia), vão todos os dias para trabalhar, através de um túnel que passa quase pelo centro da Terra.
Quaid, nessa busca por uma vida mais emocionante, acaba indo parar na Recall, empresa que fabrica memórias falsas. Ele decide, então, se tornar um super espião, para realizar sua fantasia (ele aparece lendo livros de Ian Fleming, o criador do 007). Mas algo dá errado (ou não) e o filme se constrói na eterna dúvida de que ele poderia estar trabalhando tanto para o Chanceler Cohaagen, papel de Bryan Craston, que controla com mão de ferro o túnel, quanto para Matthias, interpretado por Bill Nighy, líder da resistência. Ou, tudo poderia apenas não passar de um sonho.
E é nessa berlinda entre o sonho e a realidade que se equilibra boa parte do filme. E não há sutilezas no cinema do diretor Len Wiseman, figurinha de blockbusters de ação como “Anjos da Noite” e “Duro de Matar 4.0” (com a ligeira exceção do já citado livro de Fleming). Quaid questiona suas decisões e suas memórias em alto e bom som, o tempo todo, para quem estiver por perto. Seja para a esposa (que pode não ser esposa), Lori, papel de Kate Beckinsale, seja para a namorada (que pode só existir em sua mente), Melina, interpretada por Jessica Biel.
Farrell, apesar de fazer muita cara de coitado, até que se esforça para que seu personagem tenha algumas camadas, enquanto as duas atrizes centrais funcionam bem como objeto de decoração (e, nesse quesito, o prêmio vai para Jéssica), ainda que Kate faça as vezes de uma exterminadora do futuro, repetindo trejeitos e movimentos que já estamos cansados de vê-la fazer em “Anjos da Noite”, ainda que aqui não role a dentadura. Quem tem mérito de atuação mesmo são os dois polos: Craston e Nighy. Mas eles não têm, no total, nem 20 minutos de cena, o que é uma pena.
E ainda que o filme faça um certo esforço pelo final aberto e pelo balanço entre o real e o imaginário, um certo discurso político fajuto acaba saltando aos olhos. Afinal, é mostrado claramente um abismo entre ricos e pobres, opressores e oprimidos, mas, ao mesmo tempo, tudo é resolvido por conta de um herói salvador. Por outro lado, há o detalhe de contar uma mentira para justificar uma ação político-militar, motivada por fins financeiros, lembrando o discurso anti-Bush e suas ‘armas químicas’ que não foram, mas poderiam ter sido, encontradas no Iraque. Tudo isso é bem raso e mal desenvolvido, já que o filme, no fundo, é uma tentativa de pegar carona no sucesso do original (além de nossas memórias afetivas dele), tudo embalado em belas imagens, sobrecarregadas de brilhos quase fantasmagóricos como os de “Star Trek”, e cenas de ação de tirar o fôlego.
E já que falei no original, vamos lá: Verhoeven criou um pastiche de futuro, em que somos tão patéticos quando no presente, com um vilão que mais lembra um mafioso, enquanto Wiseman foca na distopia meio que totalitária, com o vilão fazendo as vezes de tirano despótico. Cada um diz algo de seu tempo, é verdade, mas as motivações do Quaid de Schwarzengger pareciam mais legítimas, ainda que ele mesmo fosse uma versão meio patética de super espião. Fora que não haviam tantos erros de continuidade.
A boa notícia é que a prostituta de três seios está em ambos. E fazendo topless.
Confira o trailer:
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